Eu era tão inocente àquela
época... Tinha em torno de quinze anos, vivia com meus pais e minha irmã mais
velha. Minha vida era estudar e jogar vôlei no time da escola. Obediente e
comportada, assim eu era. Nem namorado eu tinha. Não me interessava por nenhum
daqueles garotos bobos que não conseguiam sustentar um assunto sequer. Era
assim a minha vida, na pequena cidade em que eu morava. Lá, nada acontecia. As
estações do ano passavam inverno, verão, outono, inverno. Alguns partiam, mas
ninguém chegava. Mesmo assim eu gostava de viver lá.
Um dia ele chegou. Apareceu na
cidade em um potente carro negro, que eu jamais vira igual. Alto, elegante,
cabelos negros caindo pelos ombros. Apaixonei-me imediatamente. Ele se instalou
em uma enorme casa, no alto da colina, um tanto afastada da cidade. Todos
estranharam. Por que aquele homem fora viver lá? Aquele era um lugar maldito.
Eram as ruínas de um antigo orfanato que se incendiara, misteriosamente, há
mais de 40 anos. De repente, começaram a surgir operários de todos os lados e
em pouco tempo, se erguera uma bela casa. Apesar da beleza que ficara o lugar,
ficamos chocados. Por que Ian escolhera um local feito aquele?
Ian, este era o nome dele. Viera
acompanhado de uma mulher de cabelos vermelhos, tão linda quanto ele era. E
ainda é. Abriram um restaurante na cidade e eu não demorei a passar por lá mais
vezes que meus pais gostariam. Ian encantou-se logo por mim, apesar da beldade
que dividia a cama com ele. Todas as mulheres da cidade sentiam um encantamento
por ele, assim como os homens se cutucavam quando viam Verena passando. Eu
nunca os via de dia e não estranhava isto, apesar dos comentários. Minhas notas
começaram a despencar à medida que meu amor por Ian aumentava e sua atenção por
mim era redobrada.
Os animais de estimação da cidade
começaram a aparecer mortos. Alguma fera entrava em nossos quintais e jardins e
atacava nossos bichinhos com violentas mordidas no pescoço. A rotina da cidade
se alterou. Todos ficaram com medo. Menos eu. Conseguia dar um jeito de ir ao
restaurante, onde Ian me recebia com toda sua gentileza. Verena parecia nem se
importar. Mentia aos meus pais que ia estudar com uma amiga, algo totalmente
fácil de desmentir, já que tantos conhecidos do meu pai me viam em torno de Ian
quase todas as noites lá no restaurante.
No dia em que fui expulsa do time
de vôlei por mau comportamento, as coisas pioraram para o meu lado. Só tinha
autorização para ir até a escola e voltar. Meu coração sangrou. E Ian? O que eu
faria sem ele? De repente, meus pais descobriram que minhas saídas noturnas
eram para outros fins. Eu queria morrer, presa no meu quarto de castigo,
sofrendo de saudades de Ian.
Acordei certa noite, sentindo uma
presença estranha no meu quarto. Sobressaltada, sentei-me na cama. Na penumbra,
consegui visualiza-lo. Ian estava lá, sentado em uma poltrona, observando-me.
Aconcheguei-me nos braços dele, beijamo-nos e ele ignorou minhas perguntas de
como havia conseguido entrar no meu quarto. A janela estava aberta, e ele só
poderia ter entrado voando! Mas aquilo deixou de ser importante para mim. Ian
estava comigo e isto era a melhor coisa do mundo. Ele foi embora depois de
algum tempo, não sem antes de me dar uma mordida no pescoço. Gemi, pois senti
os caninos dele penetrando na carne. Porém, de tão apaixonada, não me importei.
Ele repetiu a visita noturna
várias vezes. E a cada visita eu ficava mais fraca. Lá em casa, notaram que eu
parecia um zumbi. Mal tinha forças para ficar em pé. Escondia as mordidas de
Ian levantando a gola. Outra noite ele sugou meu sangue pelas veias do meu
pulso. Na noite seguinte, não consegui me enxergar no espelho. Meus caninos
pareciam que haviam aumentado de tamanho. Sentia sede. Sede de sangue. Eu já
sabia no que havia me transformado. Meu amor é um vampiro. E eu também.
Descobri isto naquela noite quando me debrucei da janela e sem querer,
projetei-me no ar. Não me estatelei como esperava que acontecesse, mas saí
voando pela noite, iluminada pela lua cheia, indo atrás do amor que me
acompanha pela eternidade.
Hoje, eu e Ian vagamos pelo
mundo, com nossa legião de vampiros. Verena também está conosco, mas Ian é meu
amor. Ele é o príncipe das trevas e eu sou sua mulher. Apaixonei-me por um
vampiro e agora sou uma não-morta. Minha inocência, minha família, abandonei
tudo em nome de um amor das sombras. Minha sede de sangue aumenta a cada noite
e a nossa legião de vampiros cresce na mesma proporção. E, você, tenha cuidado.
Eu estou por perto.
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